ARTÍCULO ORIGINAL / ORIGINAL ARTICLE / ARTIGO ORIGINAL

 

Saúde mental do Idoso: percepções relacionadas ao envelhecimento

 

Mental health of the elderly: perceptions related to aging

 

Salud mental del anciano: percepciones relacionadas con el envejecimiento

 

 

Lais Soares Vello1; Maria Alice Ornellas Pereira2; Regina Célia Popim3

 

1Enfermeira. UNIMED, Piracicaba/SP. Brasil. email: lais_vello@hotmail.com.

2Enfermeira, Especialista. Professora Universidad Estadual Paulista UNESP, Brasil. email: apjmaop@superig.com.br.

3Enfermeira Doutora. Professora UNESP, Brasil. email: rpopim@fmb.unesp.br.

 

Fecha de Recibido: Agosto 9, 2012. Fecha de Aprobado: Octubre 7, 2013

 

Artículo vinculado a investigación: Saúde Mental do Idoso: percepções relacionadas com o envelhecimento em interface com o atendimento de saúde na atenção básica.

Subvenciones: ninguna.

Conflicto de intereses: ninguno.

Cómo citar este artículo: Vello LS, Pereira MAO, Popim RC. Mental health of the elderly: perceptions related to aging. Invest Educ Enferm. 2014;32(1): 60-68.

 

DOI: 10.17533/udea.iee.v32n1a07

 


RESUMO

Objetivo. Compreender como o ancião percebe sua condição nesse momento da sua vida. Metodologia. Em 2012 se realizou um estudo no que se empregou o método qualitativo segundo Minayo e se fez análise temática segundo as indicações sugeridas por Bardin. A informação foi coletada de entrevistas semiestruturadas realizadas nas moradias dos anciãos. A pergunta orientadora foi: Neste momento da sua vida, como se sente? Conte-me. Resultados. Os anciãos satisfeitos atribuíram esse sentimento à boa convivência com a família, com o cônjuge, ao fato de ter autonomia e respeito da sociedade. Os que se mostraram insatisfeitos relataram falta de apoio da família, limitações físicas próprias da idade e a presença de doenças como principais queixas. Conclusão. A população adulta exige para seu atendimento a utilização de tecnologias de cuidado que contemple todas as etapas da vida, incluindo a velhice. Os profissionais de enfermagem devem estar preparados para a crescente demanda de cuidado destas pessoas.

Palavras chaves: idoso; saúde mental; atenção primária à saúde; pesquisa qualitativa.


ABSTRACT

Objective. To understand the elderly's perception of their current condition. Methodology. Study undertaken in 2012 using the qualitative method of Minayo and the thematic analysis according to Bardin's suggestions. Data were collected through semi-structured interviews that took place in the homes of the elderly people. The guiding question was: At this point in your life, how do you feel? Tell me. Results. The elderly who were satisfied stated that this was due to the good relationship with their family, spouse, to the fact of having autonomy and respect from the society. Those who were shown to be dissatisfied reported lack of family support, physical limitations imposed by age and the presence of illnesses as the main causes. Conclusion. The adult population requires the use of care technologies that cover all the stages of life, including old age. Nursing professionals should be prepared for the increasing care demand of these people.

Key words: aged; mental health; primary health care; qualitative research.


RESUMEN

Objetivo. Comprender cómo el anciano percibe su condición en ese momento de su vida. Metodología. En 2012 se realizó un estudio en el que se empleó el método cualitativo, según Minayo, y se hizo análisis temático de acuerdo las indicaciones sugeridas por Bardin. La información fue recolectada de entrevistas semiestruturadas realizadas en las viviendas de los ancianos. La pregunta orientadora fue: ¿cómo se siente en este momento de su vida? Cuénteme. Resultados. Los ancianos satisfechos atribuyeron ese sentimiento a la buena convivencia con la familia, con el cónyuge, al hecho de tener autonomía y respeto por parte de la sociedad. Los que se mostraron insatisfechos, relataron falta de apoyo de la familia, limitaciones físicas propias de la edad y la presencia de enfermedades. Conclusión. La población adulta exige para su atención la utilización de tecnologías de cuidado que contemple todas las etapas de la vida, incluyendo la vejez. Los profesionales de enfermería deben estar preparados para la creciente demanda de cuidado de estas personas.

Palabras clave: anciano; salud mental; atención primaria de salud; investigación cualitativa.


 

 

INTRODUÇÃO

A população brasileira se encontra em meio a uma profunda transformação socioeconômica impulsionada pela mudança demográfica. Entre 1940 e 2010, as taxas de mortalidade começaram a cair, principalmente entre jovens e crianças, e a expectativa de vida ao nascer aumentou de 50 para, aproximadamente, 73 anos. A velocidade do envelhecimento populacional no Brasil será significativamente maior do que ocorreu nas sociedades mais desenvolvidas no século passado.1 O processo de envelhecimento nos países desenvolvidos acompanha melhorias na cobertura do sistema de saúde, nas condições de habitação, saneamento básico, trabalho e alimentação; no Brasil, ocorre rapidamente e em um contexto de desigualdades sociais, economia frágil, crescentes níveis de pobreza, com precário acesso aos serviços de saúde e reduzidos recursos financeiros.2

Esse acelerado crescimento da população idosa brasileira vem exigindo a construção de estratégias e políticas visando à promoção do envelhecimento saudável e à garantia dos direitos humanos, uma vez que o envelhecimento da população torna mais visíveis problemáticas antes consideradas "silenciosas", como o fenômeno da violência contra a pessoa idosa. O envelhecimento da população amplia a magnitude dessa violência e torna premente a necessidade de adequação dos serviços públicos para a atenção à saúde desse grupo populacional, de modo a agregar dignidade e qualidade de vida aos anos vividos.3 Na perspectiva da saúde coletiva, a violência não é inata; constitui um fenômeno social complexo, passível de prevenção, e sua abordagem requer um enfoque sistêmico-ecológico, abrangendo as esferas individual, familiar, da comunidade e da sociedade como um todo, com políticas públicas e estratégias de enfrentamento específicas para cada nível de abordagem.4

Considerando a efetivação das Políticas de Saúde necessárias, desde 1994, o Brasil vem desenvolvendo legislações direcionadas à população idosa, enfatizando as especificidades da atenção à saúde e inclusão social na Política Nacional do Idoso e no Estatuto do Idoso; a preocupação com o problema da violência na Política Nacional de Saúde do Idoso, na Política Nacional de Redução da Morbimortalidade por Acidentes e Violências e no Pacto pela Saúde; estas políticas preconizam a atenção integral à saúde dos idosos em todos os níveis de assistência, a ressocialização e integração social, familiar e comunitária, a capacitação de recursos humanos nas áreas mais diretamente relacionadas aos idosos e o apoio a estudos e pesquisas.3

O aumento na demanda aos sistemas de saúde pelos idosos sinaliza para a necessidade de reestruturação da atenção básica, cabendo ao estado a formulação de políticas e decisões para dar prosseguimento nas ações de saúde, suprindo as necessidades da população. Esses estudos epidemiológicos são essenciais para identificar problemas prioritários, de modo a orientar decisões relativas à definição de prioridade, permitindo, assim, direcionar melhor as ações de saúde, evitando gastos desnecessários.5 É um desafio para as escolas formadoras, formar os profissionais de saúde com vista ao envelhecimento da população, o foco deve ser o desenvolvimento de competências específicas da atenção à saúde do idoso de forma sistematizada, visando atingir a integralidade do cuidado, a interdisciplinaridade e a intersetoralidade.6

O profissional enfermeiro, como membro da equipe multiprofissional, deve estar atento às necessidades em saúde advindas da população, elas devem ser o norte das ações de cuidado. Fazendo-se necessário o domínio de instrumentos de avaliação das necessidades. Ao alcançar a terceira idade, os idosos podem ser independentes ou idosos frágeis, destacando a terapia comunitária como espaço de partilha e promoção da saúde mental do idoso7. Alguns indivíduos podem apresentar quadros psiquiátricos que chegam a ser comuns nessa faixa etária. Tais prejuízos mentais, de modo geral, incluem a demência, estados depressivos ou quadros psicóticos que são iniciados tardiamente. Contudo, há também casos em que o transtorno teve início na juventude e o indivíduo alcançou a terceira idade com ele, como por exemplo, a esquizofrenia, o transtorno afetivo bipolar, a distimia e transtornos ansiosos.7

O idoso, vítima de violência, pode apresentar um quadro de doença mental, na maioria das vezes em estágio residual e, portanto, também integrante do grupo de maior vulnerabilidade à violência por ser dependente de seus cuidadores. Diversos autores têm ressaltado a associação da violência ao surgimento de quadros psiquiátricos, principalmente a depressão.3 Torna-se evidente que o cuidado comunitário do idoso deve basear-se, especialmente, na família e na atenção básica de saúde, por meio das Unidades Básicas de Saúde (UBS), em especial daquelas sob a estratégia de saúde da família, que devem representar para o idoso, idealmente, o vínculo com o sistema de saúde.7 Para a saúde coletiva, o envelhecimento populacional se apresenta como um dos maiores desafios; contudo, é importante ressaltar que essa transição demográfica reflete ganhos para o Estado e para a sociedade, pois esse envelhecimento da população é produto da redução da fecundidade, da mortalidade infantil e da mortalidade nas idades mais avançadas.2 Tornando-se necessário a formação dos profissionais com vistas ao atendimento das necessidades da população idosa como um todo. Por outro lado, estudo realizado em São Paulo, Capital, evidenciou a grande dificuldade dos profissionais de saúde da atenção básica em não terem instrumentos padronizados de avaliação das necessidades de saúde, aplicáveis na Estratégia Saúde da Família.8

No Pacto em Defesa da Vida há seis prioridades, porém três delas se destacam no universo que envolve a saúde da população com 60 anos ou mais. Tais prioridades compreendem a saúde do idoso, a promoção da saúde e o fortalecimento da Atenção Básica (AB). Nesse contexto, a Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa vem reafirmar que a atenção primária deverá ser o meio de inserção inicial do idoso nos serviços de saúde do Sistema Único de Saúde (SUS), e contar com a referência da rede de serviços especializados de saúde, envolvendo a média e alta complexidade.9

Já a Política Nacional de Promoção da Saúde dispõe de estratégias de implementação que deverão nortear as ações planejadas pelos profissionais da AB com o intuito de melhor assistir os idosos, em particular. A Política Nacional de AB informa, sobretudo, que as ações poderão ser desenvolvidas através de práticas gerenciais e sanitárias democráticas e participativas, por meio do trabalho em equipe.6 Os profissionais que atuam na atenção básica, em especial o enfermeiro como membro da equipe de saúde, necessitam ter, de modo claro, a importância da manutenção do idoso na rotina familiar e na vida em comunidade como fatores fundamentais para a manutenção de seu equilíbrio físico e mental. Visualizar e defender como fundamental a presença da pessoa idosa na família e na sociedade de forma alegre, participativa e construtiva é uma das importantes missões daqueles que abraçaram a proposta da atenção básica resolutiva, integral e humanizada. Não devem aceitar apenas a longevidade do ser humano como a principal conquista da humanidade contemporânea, mas que esse ser humano tenha garantida uma vida com qualidade, felicidade e ativa participação em seu meio. Assim, as "coisas da idade" não devem ser vistas como uma determinação, mas, sim, como possibilidade.9

As ações de saúde desenvolvidas pelos profissionais que atuam na Estratégia Saúde da Família (ESF) necessitam superar a antiga proposição de caráter exclusivamente centrado na doença, utilizando-se de práticas gerenciais e sanitárias, democráticas e participativas dirigidas à população de territórios delimitados, pelos quais assumem responsabilidade. Isso requer que os profissionais de saúde da família estejam preparados para lidar com o envelhecimento para romper com a fragmentação do processo de trabalho e estabelecer uma relação com o idoso reconhecendo a sua experiência e sabedoria.6 Sem dúvida, o estado brasileiro está às voltas com grandes desafios, onde a política publica deveria priorizar a manutenção da capacidade funcional dos idosos, com monitoramento das condições de saúde, com ações preventivas e diferenciadas de saúde e de educação, com cuidados qualificados e atenção integral. Questões pertinentes à exclusão dessas pessoas, muitas vezes mesmo no contexto familiar, estão presentes na realidade cotidiana das comunidades e dos serviços de saúde. A partir dessas considerações, esta pesquisa teve como objetivo compreender como o idoso se percebe mediante sua condição atual.

 

METODOLOGIA

A pesquisa caracteriza-se como de natureza qualitativa que, segundo Minayo,10 é entendida como aquela capaz de incorporar a questão do significado e da intencionalidade como inerentes aos atos, às relações e às estruturas sociais. O presente estudo foi desenvolvido em uma unidade que desenvolve a Estratégia Saúde da Família, localizada na periferia de uma cidade do interior paulista. O bairro onde está localizada a referida unidade caracteriza-se por uma população de baixa classe social, com complexas teias familiares. Foi observado que um grande número de idosos faz uso de medicamentos psiquiátricos, com elevado número para depressão. A unidade possui três equipes de saúde, cada equipe é composta por um médico, um enfermeiro, três auxiliares de enfermagem, quatro agentes comunitários de saúde (ACS), um dentista, um auxiliar de dentista, um auxiliar administrativo e um auxiliar de limpeza. A unidade tem o apoio matricial da equipe de saúde mental.

A escolha dos sujeitos se deu a partir do contato da pesquisadora junto aos profissionais da unidade Estratégia Saúde da Família. Foram entrevistados treze sujeitos, com idade igual ou acima de setenta anos, atendidos no serviço, com algum diagnóstico relacionado à área de saúde mental e que no momento da entrevista estavam em condições de responder aos questionamentos propostos. Foi utilizado o critério de saturação estabelecido por Minayo.10

Após a avaliação positiva do Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Medicina, Ofício Número 3555-2010, foram efetivadas as entrevistas por meio da visita domiciliária (VD), a partir de indicações das Agentes Comunitárias de Saúde e de outros profissionais da unidade. Após essa etapa, recorremos à entrevista semiestruturada. Nessa, depois dos dados de identificação (sexo, idade, estado civil, n. de filhos, com quem reside, possui benefício) utilizamos o gravador, efetuando a seguinte pergunta norteadora: Neste momento da sua vida, ¿como o/a senhor/a se sente? Conte para mim. Foi feita, inicialmente, uma entrevista piloto para testar o instrumento e realizar as alterações pertinentes. Desse modo, as entrevistas foram realizadas no mês de setembro de 2011, na casa dos sujeitos e, para tal, a pesquisadora foi acompanhada pelo Agente Comunitário. As entrevistas tiveram média de duração de 10 a 20 minutos, e em todas as casas a pesquisadora foi bem recebida pelos sujeitos e seus familiares e/ou acompanhantes.

Os dados apreendidos na entrevista foram transcritos pela pesquisadora. A seguir, recorremos à Atenção Flutuante;10 nessa, o pesquisador realiza várias leituras do texto obtido, com o objetivo de estabelecer o maior contato possível com o material, deixando-se impregnar pelo seu conteúdo. Na etapa seguinte, utilizamos a análise temática proposta por BARDIN. A referida autora afirma que a análise temática consiste em descobrir os núcleos de sentido que compõem a comunicação e cuja presença ou frequência de aparição podem significar alguma coisa para o objetivo analítico escolhido.11 Nessa ótica, a análise temática segue as seguintes etapas de organização: pré-análise, exploração do material, tratamento dos resultados, inferência e interpretação.

 

RESULTADOS

Para a obtenção dos dados, foram entrevistados treze sujeitos, sendo nove mulheres e quatro homens. A idade variou entre setenta e noventa anos, sendo que desses, oito sujeitos possuem entre setenta e setenta e nove anos. Quanto ao estado civil, oito são casados e cinco viúvos. Quanto à moradia, dois entrevistados moram sozinhos, oito residem com o/a companheiro/a, um mora com a sobrinha e apenas dois com os filhos. As entrevistas resultaram em relatos ricos de significados, sendo possível a apreensão dos temas Satisfação motivada pelo Bem-Estar e Insatisfação motivada pelas Perdas e Abandonos, conforme evidenciado nas descrições abaixo:

Satisfação para com a vida

A satisfação, o Bem- Estar é evidenciado por ter a família reunida, troca de afetos e, sentir-se pertencendo ao grupo: Então, a gente fica orgulhoso, família reunida, chega dia de aniversário, vem todo mundo.., não tem nada que atrapalhe (E9). Há expressão de orgulho por ter construído, ao longo da vida, o próprio núcleo familiar: Eu tinha um terreno aqui que vendi para pagar divida do meu filho, ... Aqui a gente vive há 40 anos, não tem o que reclamar (E7).

Os sujeitos verbalizam a celebração da vida, reverenciando o tempo vivido e lembram outros já se foram: Ah eu acho que é uma felicidade chegar nessa idade porque eu tenho irmão, dezoito anos mais novo que eu, e que já morreu (E10), o bem estar é expresso por ter a companhia dos filhos, o lazer e a condição de poder ir e vir, mobilizar-se, todos estes fatores são elencados como importantes: Eu saio, passeio, saio com os meus filhos, de um lado para outro... (E12), A gente fez o que pôde, lutou na vida, porque são sete filhos que criei.. (E9)

A sensação de bem estar também está relacionado à religiosidade do idoso e as praticas e crenças religiosas contribuem decisivamente para o bem estar na velhice: Bem, graças a Deus (E 12), Porque a vida não é ruim, a vida é boa, né? Graças a Deus. Sempre tem um probleminha, mas passa, né? (E1).

Estar satisfeito para com a vida, estar inserido no grupo familiar, trocar afetos com outros, contribuem para o idoso superar os momentos difíceis, e lidar melhor com as perdas impostas pela própria vida: É, graças a Deus, né? Deus é bom (E2), Deus levou ele (o esposo,) né? Meus filhos, graças a Deus, tão bem. Cada um tem seu emprego (E6).

Insatisfação para com a vida

As perdas e abandonos vividos são sinalizados como fatores de insatisfação para com a vida: Não me sinto muito bem não, sempre doente, sempre doente, risos (E3). A expressão nítida das limitações impostas pela própria idade e agravados por patologias presentes na velhice: É ruim, eu não era ruim assim (E5), até aqui, o que mais me mata eu, tirando a morte do homem, né, é a diabete que eu não posso comer com medo de comer isso, de comer aquilo e uma dor na junta que queima aqui na costela (E13). Idoso revela sofrer com as perdas no decorrer da idade cronológica, mas ao mesmo tempo, revelam enfrentar as limitações com maior repertorio de estratégias de enfrentamento: Porque a gente fica triste, e a gente trabalhava, saía sempre e agora aposentou, fica mais em casa, né? E também não aguento mais trabalhar (E1); A gente tem pai, mãe, sogro, sogra; depois, quando chega essa idade, não tem mais nada.(E2).

Muitos revelam que se incomodam com as limitações físicas impostas pela idade: Eu fico chateada, porque eu não posso fazer nada mais, não faço nada mais, dependo de tudo, até comida elas que me dão assim, pega assim, dão na minha mão, não aguento ficar em pé numa pia para arrumar uma cozinha... (E6). Lembram com saudosismos de um tempo que viveram, um tempo melhor que o atual: Falta assim, quando os filhos eram tudo junto, era mais gostoso, pequenino, né? Agora as preocupação são outras (E10).

Há também a comparação do corpo jovem em relação ao corpo velho, como este em pior situação, mais feio e com maior limitações: porque o bom da vida da gente, acho que quando a gente é moça, passear, né, ter namorado...(E13).

Alguns idosos revelam sentirem –se abandonados pela família, revelando um sentimento de não pertencimento, de ruptura do núcleo familiar: ... eles[netos] não dão conta de mim, têm eles, mas é o mesmo de não ter, que não vem adota eu, não aparece (E5). Há a expressão de decepção em relação à famílias que constituiu, a falta de relação e troca de afetos de seus membros: O pior da historia é isso ai, porque até agora, vou falar a verdade para você, ninguém da minha família veio trazer nada para mim (E13), Começa sozinho, termina sozinho (E11).

 

DISCUSSÃO

Quando se trata do tema Satisfação para com a vida, Bem- Estar observamos que na literatura hispânica, ao se referir a conceitos de qualidade de vida como os de felicidade, bem-estar, saúde, atrela-os, necessariamente, ao bem-estar social e econômico.12 Os sujeitos ouvidos, quando se referem à qualidade de vida, exprimiram o sentimento de bem-estar com a própria realidade atual de vida, manifestando a satisfação em ter a família reunida, a troca de afetos, e sentimento de pertença ao grupo.

A correlação entre saúde social e estrutura familiar expressa que a família representa tanto um suporte social para os idosos quanto sua preocupação de bem-estar com os membros da família, ou seja, tendem a definir envelhecimento saudável na possibilidade de vislumbrar um bem-estar amplo dos filhos e parentes, observando aspectos emocionais, físicos e financeiros,13 o que representa quando o entrevistado expressa em seu discurso o orgulho das construções ao longo da vida em seu núcleo familiar. É no ambiente familiar que são incorporados os valores éticos e humanitários, e onde se aprofundam os laços de solidariedade. É também em seu interior que se constroem as marcas entre as gerações e são observados valores culturais.14

No nosso cotidiano, parece claro o significado de família, tendo em vista que a maioria das pessoas faz parte de uma unidade familiar. Porém, a família se apresenta sob os mais variados tipos de apoio.15 Foi possível constatar que alguns sujeitos verbalizaram a importância de celebração da vida, reverenciaram o vivido e lembraram que outros já se foram. E, mais uma vez, os sujeitos expressaram o quanto a companhia dos filhos, a busca do lazer e a condição de poder mobilizar-se é importante para a preservação do bem-estar. Uma atitude positiva da família em relação ao idoso é fundamental: é preciso, em primeiro lugar, constatar que muitos idosos não têm família ou mesmo tendo-as, com elas não convivem; daí que a responsabilidade pelo idoso é de toda sociedade.14 Por outro lado, a importância do convívio social a partir dos grupos que promovem atividades recreativas e socioculturais existentes na comunidade, contribui para inserção, socialização, aprendizagem e as trocas mútuas, possibilitando às pessoas idosas, ampliarem o próprio estilo de vida.

No campo das Políticas Públicas, outra proteção social básica desenvolvida pela política de Assistência Social, que beneficia indiretamente os idosos, é o Programa de Atenção Integral à Família (PAIF), realizado em Municípios, denominado: Casa de Famílias, com objetivos de acolher, conviver, socializar e estimular a participação social das famílias e seus componentes. A Assistência Social para o enfrentamento das questões da violência contra o idoso inclui: centros de convivência, casas lares, abrigos, centros de cuidados diurnos e noturnos, atendimentos domiciliares, articulando as demais políticas públicas.16

A sensação de bem-estar também pode resultar da religiosidade/espiritualidade do idoso. No Brasil, 99% dos adultos declararam acreditar em Deus.14 A religiosidade tem uma dimensão central na vida de uma grande parte dos idosos, pois o aumento da espiritualidade com o avançar da idade é fonte importante de suporte emocional, com repercussões nas áreas da saúde física e mental. Práticas e crenças religiosas parecem contribuir decisivamente para o bem-estar na velhice,16-17 como foi observado em várias das falas.

Pertencer a um grupo traz suporte psicossocial que pode promover a saúde. A religião pode fornecer a coesão social, assim como o sentimento de pertencer a um grupo, a troca de afetos e continuidade nas relações de amigos, familiares e grupos de apoio, propiciam a satisfação do idoso com o avançar da idade.18 Uma pessoa com orientação religiosa encontra-se mais segura espiritualmente e porta de mais consolo e distração.19 Veri?cou-se que maiores níveis de envolvimento religioso estão associados positivamente a indicadores de bem-estar psicológico (satisfação com a vida, felicidade, afetos positivo e moral mais elevados) e a menos depressão, pensamentos e comportamentos suicidas, uso/abuso de álcool/drogas. Assim, há indícios su?cientes disponíveis para se a?rmar que o envolvimento religioso habitualmente está associado à melhor saúde mental.18,19 Observamos também, que após períodos difíceis, os idosos souberam lidar com as perdas impostas pela vida, apegando-se a uma força maior. A velhice é um fenômeno social e vital complexo, sendo determinado pelo curso de vida e pelas experiências e oportunidades socioculturais e históricas acumuladas durante a vida. A velhice e o envelhecimento não são sinônimos de doença, inatividade e contração do desenvolvimento.20

Em relação ao tema insatisfação para com a vida, as perdas e abandonos, estiveram relacionados. Observamos que a solidão provoca um sentimento de vazio interior, que pode estar presente no ser humano nas diferentes fases da vida, e tende a ser mais frequente com o envelhecimento. As experiências acumuladas, o transcorrer do tempo e, com ele, as restrições impostas, contribuíram para a elaboração de alguns relatos que apontam o descontentamento mediante a situação vivida, trazendo os sentimentos de perda ou de abandono.18 As situações que levam ao abandono são provocadas pela condição de fragilidade do idoso, que pode passar a depender de outras pessoas, pela perda da autonomia e da independência, pelo esfriamento dos vínculos afetivos e pela conduta do grupo de relações ou ausência dele, o que impede o indivíduo de viver e conviver plenamente e de permanecer inserido na família, no grupo e na cultura. Essa situação rompe o contato vital com o mundo, favorece a inércia do corpo e rouba a possibilidade de ser e de conhecer.20

Em alguns discursos foram encontrados o descontentamento com as limitações da idade. A qualidade de vida e a satisfação na velhice têm sido muitas vezes associada às questões de dependência-autonomia, sendo importante distinguir os "efeitos da idade". Algumas pessoas apresentam declínio no estado de saúde e das competências cognitivas precocemente, enquanto outras vivem saudáveis até idades muito avançadas, como foram vistas em alguns relatos anteriores a insatisfação com as doenças adquiridas. Os idosos, frente aos eventos de perda, lidam muito bem com o estresse, ou seja, os idosos geralmente são mais eficientes do que os adultos mais jovens em suas respostas de enfrentamento ao estresse. A explicação para tal fato se dá ao pensarmos que, no envelhecimento, os idosos possuam tanto um maior repertório de estratégias de enfrentamento que passaram ao longo da vida, quanto o fato de que esses se tornam mais eficazes com o passar dos anos.20,21

Entretanto, isso não garante que o idoso não sofra, o que pode explicar sua susceptibilidade à depressão. Há também quem se incomode com as limitações impostas pela idade, a dificuldade dessa readaptação e a aceitação das novas condições de vida, e há o saudosismo do que se viveu. A sociedade cobra juventude eterna, pois vivemos em uma época onde o crescimento das ofertas no setor de cuidados com o corpo, que vai de cosmética à cirurgia plástica, da suplementação alimentar, aos exercícios físicos, prometem retardar os efeitos da passagem do tempo ou, pelo menos, algumas de suas marcas mais notórias. Como consequência, a insatisfação de alguns velhos com relação ao próprio corpo pode estar associada a certas restrições e à diminuição das possibilidades corporais, como também à ideia de que um corpo velho é um corpo feio. Certas pessoas reclamam que seus corpos não inspiram mais nenhum atrativo, sobrando apenas tristeza e lembranças de um tempo de sedução.20 Alguns relataram sentirem-se abandonados pela família. A família é o meio natural de inserção do ser humano. Quando há ausência ou rompimento dessa inserção, o idoso vive uma situação de não pertencimento, sente-se ignorado, desvalorizado, excluído. O abandono é concebido como sentir-se desamparado no meio dos outros, é não estar bem, é não ter ajuda de ninguém, é andar de um lado para o outro. É ter família e não ser por ela protegido, esquecido, isolado, indiferente, não ser valorizado e não receber atenção.19

Quando se pensa em violência intrafamiliar, normalmente nos remetemos às agressões físicas, mas a violência pode ser definida como ações ou omissões que afligem a integridade emocional e física da vitima. Muitos familiares cometem o abandono, a negligência, a violência psicológica, mas não deixam o idoso ir embora de sua residência porque ele se torna como uma renda complementar à família, dessa maneira explorando o seu recurso financeiro e o ser humano nele existente.21 O fato de ter constituído família não garantiu ao idoso a companhia da mesma no atual momento e podemos perceber, de acordo com as falas, a decepção que atualmente existe. Para muitos, a perda maior é a morte. Aceitar o limite imposto pela morte como experiência cotidiana implica aceitar as regras da existência, visto que a morte impõe uma ruptura com tudo o que se conhece e se ama e faz parte da condição humana.21

Como considerações finais, o estudo evidenciou a necessidade de investimentos em recursos para políticas sociais e de saúde dirigidos a essa população e capacitação de profissionais para compreender a nova estrutura familiar e prover-lhe apoio, criação de novos equipamentos urbanos, serviços e programas de inclusão do idoso. Em particular, a possibilidade de a enfermagem, como membro integrante da equipe interdisciplinar, captar essa demanda e prestar cuidados ampliados a essa população.

Promover a facilidade de acesso e mobilidade, com políticas que garantam a autonomia dessa população e independência com capacidade funcional, são atributos necessários e estão diretamente ligados à qualidade de vida na velhice. Nosso estudo não possibilita generalizações, por ser localizado em população restrita, porém foi possível compreender alguns princípios norteadores na vida cotidiana do idoso brasileiro vivendo na sociedade em relação ao atendimento na atenção básica de saúde. Destacamos ainda a importância de os órgãos formadores manterem o olhar atento à formação dos futuros profissionais de saúde referentes às questões do envelhecimento humano, em especial os enfermeiros como peças fundamentais compondo equipes interdisciplinares.

Assim, como desafio para a sociedade, podemos dizer que cabe a nós, do ensino superior, que somos formadores de recursos, visualizamos o idoso além de suas limitações, nele percebendo um ser que tem grande vivência, contribuiu socialmente em seu meio e têm direitos a benefícios sociais. Embora em nosso país sejam os idosos que apresentem maior carga de doenças e incapacidades e, em consequência, usam mais os serviços de saúde, os modelos vigentes de atenção à saúde de idosos são ineficientes e de alto custo. Precisamos pensar urgentemente em implementar modelos como os Centros de Convivência que proporcionem a avaliação e manutenção da condição física e mental dos idosos e tratamento de sua saúde de forma interdisciplinar e integral, com cuidados qualificados.

 

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