Elementos corporais do professor que influenciam o processo de ensino-aprendizagem dos estudantes universitários de enfermagem

Paulo Sérgio da Silva (1)

Nébia Maria Almeida de Figueiredo (2)

Objectivo

Identificar os elementos corporais do professor que influenciam o processo de ensino-aprendizagem e analisar seus efeitos nos corpos dos estudantes universitários de enfermagem.

Métodos

Pesquisa qualitativa com abordagem descritiva induzida pelo jogo dramático. Participaram do estudo 16 estudantes de um centro universitário particular localizado no Rio de Janeiro. O tratamento dos dados foi realizado a partir do referencial teórico-analítico de Bardin.

Resultados

Foram criadas quatro unidades de decodificação que versam sobre: posicionamento e movimento corporal do professor, movimentos dos olhos, as expressões faciais e as roupas utilizadas para ensinar enfermagem.

Conclusão

Os elementos corporais identificados no professor foram capazes de gerar efeitos que influenciam o processo de aprender enfermagem. Nesse sentido, é fundamental exercitar diálogos que incidam na expressividade do corpo para ensinar, reconhecidos como objeto de estudo e discussão no âmbito da formação superior de enfermeiros.

Descritores

educação em enfermagem; docentes de enfermagem; estudantes de enfermagem.


The teacher’s body elements that influence the teaching-learning process of university nursing students

Objective

To identify the body elements of the teacher that influence the teaching-learning process and to analyze their effects on university nursing students.

Methodology

Qualitative research with descriptive approach implemented through a dramatic play dynamics. In the second half of 2015, sixteen students from a private university center located in Rio de Janeiro (Brazil) participated in the study. The data processing was carried out by using Bardin’s theoretical and analytical framework.

Results

Four decoding units were created. They verse about the teacher’s positioning, body movements, eyes, facial expressions as well as the clothes used to teach nursing.

Conclusion

The teacher’s elements are capable of generating effects that influence the process of learning nursing. This leads us to believe that the body should continue to be an object of study and discussion in the higher education of nurses.

Desctriptors

education, nursing; faculty, nursing; students, nursing.


Elementos corporales del profesor que influencian el proceso de enseñanza - aprendizaje de los estudiantes de enfermeira

Objectivo

Identificar los elementos corporales del docente que influencian el proceso de enseñanza-aprendizaje y analizar sus efectos en los estudiantes de enfermería.

Métodos

Investigación cualitativa con abordaje descriptiva mediante la dinámica del juego dramático. 16 estudiantes de una universidad privada ubicada en el estado de Río de Janeiro (Brasil) participaron en el estudio. El tratamiento de los datos se realizó con el referencial teórico-analítico de Bardin.

Resultados

Se encontraron cuatro unidades de decodificación que trataron sobre: posición y movimientos corporales, los movimentos de los ojos, las expresiones faciales y la ropa utilizada por el docente para enseñar enfermería.

Conclusión

Los elementos corporales identificados en el docente producen efectos que influencian el proceso de aprendizaje de enfermería. En este sentido, es fundamental el ejercicio del diálogo que incidan en la expresividad del cuerpo para enseñar y reconocerlo como objeto de estudio y discusión en la formación superior de la enfermería.

Desctriptores

educación en enfermería; docentes de enfermería; estudiantes de enfermería.


Introdução

Os professores de enfermagem cotidianamente vivenciam os desafios da modernidade quando ensinam os estudantes ou refletem com eles sobre as variadas questões relacionadas ao ofício de cuidar. Nessa forma de pensar, os professores utilizam a linguagem corporal em diversificados cenários de ensino-aprendizagem para apresentar aos estudantes aspectos inerentes ao cuidado de enfermagem. Concretamente, os gestos, sorrisos, movimentos corporais, são exemplos desta expressividade presentes na prática de ensinar. Sim, é preciso decodificar toda essa expressão localizada no íntimo do encontro estabelecido entre os professores e os estudantes universitários de enfermagem. Nesse prisma, é mister abrir-se para investigar os elementos presentes no corpo que ensina, o qual se desvela no âmbito de uma atividade complexa e produz zonas subjetivas para pensar a formação dos enfermeiros numa perspectiva de produção de efeitos e geração de respostas no corpo que aprende.1

A dimensão do corpo é assim projetada para suscitar reflexões referentes ao processo de formação dos enfermeiros e encontrar todo um substrato teórico nos discursos da subjetividade. Especificamente, na enfermagem, o corpo pode ser compreendido como espaço mínimo, dono de suas próprias ideias, opiniões, valores, ambições e visão de mundo. Lugar de expressão e criação, de sentido e representações, da produção de imagens, poder e produto de subjetividade, instituído e instituinte, que faz movimentos políticos de mudança.2) Nesse contexto, estimular os protagonistas envolvidos no ensino a pensarem sobre sua identidade profissional, perpassa pelo desafio de romper com estruturas curriculares rígidas, avaliações que privilegiam, exclusivamente, conteúdos que versam sobre doenças e os automatismos arraigados nas estratégias pedagógicas adotadas pelos professores para ensinar.

Há que se considerar os processos que naturalizam a mudança do ensino superior em um produto mercantil, intensificando a precarização das atividades do professor universitário. Sim, o atual contexto desafia aqueles que ensinam. Fala-se das linguagens, da tecnologia, das práticas pedagógicas, de modo geral, por meio das quais as subjetividades são produzidas no mundo moderno.3) O desafio que se consolida é o de não banalizar as ações de cuidar e as relações humanas produzidas nos bancos universitários. Pensar a solidariedade, a justiça, as questões econômicas; viver e sonhar por um ensino com impactos diretos no mundo do trabalho; jamais negligenciar as práticas simples e possíveis em detrimento de apenas acreditar nas tecnologias. Contornados por essa problemática, situa-se aqui o corpo-desejo do professor em uma sociedade globalizada. Certamente, não há separação entre os fenômenos que rodeiam o mundo e os corpos que ensinam o cuidado de enfermagem. É nesse aspecto que o mundo penetra na existência humana de quem ensina, e consequentemente, é alvo de análise dos estudantes que aprendem enfermagem.

Estas conexões do corpo com o mundo e do mundo com o ensino autorizam a apresentação da seguinte questão norteadora deste ensaio investigativo: quais são os elementos corporais do professor de enfermagem que influenciam o processo de ensino aprendizagem? Para responder a esse questionamento foram definidos os seguintes objetivos: identificar os elementos corporais do professor que influenciam o processo de ensino-aprendizagem e analisar seus efeitos nos corpos dos estudantes universitários de enfermagem.

Métodos

Sobre a orientação metodológica do estudo e as características do investigador

O método utilizado nesta investigação foi qualitativo com abordagem descritiva induzida pela dinâmica do jogo dramático.4,5 Nesta orientação metodológica o investigador, do gênero masculino, foi instrumentalizado teoricamente por disciplinas, como: teoria do conhecimento, bases fundamentais para estudos qualitativos e rodas de conversas com professores e enfermeiros da Universidade de Évora e Bolonha. No momento da investigação o entrevistador possuía a titulação de Mestre em Enfermagem matriculado no segundo ano do curso de Pós Graduação em Enfermagem e Biociências - Doutorado.

Sobre o local do estudo e os aspectos éticos da investigação

No que se refere ao local do estudo: foi selecionado um curso de graduação em enfermagem de um centro universitário particular localizado na região serrana do estado do Rio de Janeiro - Brasil, cujo currículo é orientado por metodologias ativas de ensino-aprendizagem. No segundo semestre de 2015, foram realizadas as entrevistas em quatro encontros distintos, com a participação de quatro estudantes na sala de aula previamente separada. As durações dos encontros com cada grupo focal foram: primeiro grupo, 1 hora e 18 minutos; segundo grupo, 58 minutos e 37 segundos; terceiro grupo, 1 hora e 43 minutos e por fim quarto grupo 1 hora, 37 minutos e 18 segundos. Cabe destacar que no terceiro grupo de entrevistados já foi observado uma saturação na produção dos dados.

Para guiar as entrevistas foram criados cinco momentos de jogo, (A, B, C, D e E), que contém instruções para o trabalho com recursos imagéticos.6 No momento A, ocorreu o encontro com quatro participantes por jogo. Eles foram convidados a ocupar a área da sala de aula de forma livre e confortável. Na etapa B, ocorreu a distribuição da senha imaginária, que consistiu em uma pergunta indutora com o intuito de resgatar as imagens mentais vivenciadas pelos estudantes de enfermagem acerca dos corpos dos professores durante a graduação. Essa ginástica retrospectiva do imaginário foi induzida pelo seguinte questionamento não estruturado: baseado nas vivências acadêmicas, destaque os elementos dos corpos dos professores de enfermagem que influenciaram em seu processo de formação.

Após a distribuição da senha imaginária, foi acionada a engrenagem do momento C, caracterizado pela apresentação e partilha coletiva das imagens mentais vivenciadas pelos estudantes durante o processo de formação. Saturadas as discussões, os participantes foram convidados a entrar no momento D, marcado pela distribuição de uma imagem fixa, que retrata o encontro do corpo do professor na posição ereta, tocando com uma das mãos o ombro do estudante que se encontra sentado na cadeira olhando atentamente para o caderno. Feito isso, no momento E, os participantes foram convidados a dialogar com as imagens mentais vivenciadas e com a imagem fixa, articulando novos significados ao processo de ensino-aprendizagem vivenciado com os professores.

As entrevistas repetidas não foram levadas em consideração e o entrevistador no jogo dramático teve o cuidado de organizar todas as falas, que foram gravadas em recurso de áudio MP3 player, transcritas e apresentadas aos participantes. Após a leitura e ciência dos seus conteúdos, foi autorizado pelos mesmos a utilização das gravações para fins científicos. Cabe ressaltar que as impressões durante a produção dos dados foram registradas em um diário de campo para auxiliar nas discussões dos achados. Quanto aos aspectos éticos: o estudo foi encaminhado para avaliação do coordenador do curso de enfermagem. Uma vez autorizado, o projeto foi submetido à apreciação do Comitê de Ética em Pesquisa (CEP), onde obteve o parecer “aprovado” registrado com o memorando número 804.017. Cabe ressaltar que, todos os participantes desta investigação assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, seguindo as orientações da resolução 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde.

Sobre a seleção e relação dos participantes com o investigador

A amostra do estudo foi selecionada intencionalmente levando em consideração o tempo de graduação em Enfermagem, onde foi priorizada especificamente a última turma do curso justificada por maior contato com o corpo docente institucional. Os participantes foram convidados a participar do estudo no primeiro dia de aula. Nesse encontro, foram coletados os telefones e endereços eletrônicos dos interessados para o agendamento de datas, horários e salas onde as entrevistas ocorreriam. Recusaram-se a participar do estudo quinze participantes alegando indisponibilidade de tempo para o encontro, vergonha de falar em grupo e timidez diante do gravador de áudio. Não houve nenhum abandono dos dezesseis participantes incluídos, durante a coleta dos dados. No que tange a relação estabelecida entre o entrevistador com os participantes incluídos na investigação: o único encontro ocorreu antes da produção dos dados durante o convite oficializado para participação do estudo. Desta forma, os estudantes de enfermagem não tiveram nenhum contato pedagógico pregresso com o investigador durante a formação superior de enfermagem.

Sobre a análise dos dados e visão da enfermagem para a investigação

Os dados provenientes do jogo dramático foram analisados de acordo com seu conteúdo, conforme disposto no referencial teórico de Bardin.7 Esta análise foi realizada manualmente por dois investigadores separadamente que em um terceiro momento encontraram-se para parear os achados. Logo, não foram utilizados softwares para o processamento dos dados. Todos os conteúdos dispostos no manuscrito derivam exclusivamente da produção dos dados e os autores proporcionam uma descrição sobre a árvore de decodificação baseada nos elementos corporais do professor que produziram efeitos nos estudantes de enfermagem quando aprenderam o ofício de cuidar. Após a conclusão do relatório final de tese, os participantes tiveram acesso à leitura de todo o estudo e autorizaram a divulgação em periódicos da área da Enfermagem. Foram apresentados os depoimentos dos participantes no manuscrito, e para garantir o sigilo dos envolvidos no estudo foi atribuída a palavra identificadora “Estudante”, seguida da numeração ordinal advinda do percurso investigativo vivenciado na produção dos dados.

Os conteúdos foram dispostos em quatro unidades de decodificação em ordem de expressividade dos achados investigativos, do maior para o menor. Os dados foram comparados com estudos publicados em periódicos nacionais e internacionais que versam sobre o objeto de estudo corpo do professor. Aqui, é reconhecida como limitação metodológica da investigação sua amplitude local. Certamente, isso suscita o desejo do estudo ser ampliado e replicado em outros contextos de formação superior em enfermagem. Isto porque esta vivência investigativa permitiu pensar o processo de ensino-aprendizagem em enfermagem em um permanente movimento de reflexão sobre o processo de subjetivação, ou seja, formar é produzir. Neste caso, produzir enfermeiros. O que não se faz sem uma aventura no campo da subjetividade. Desse modo, o corpo do professor tem, conceitualmente, um sentido mais amplo, que é um corpo que se individualiza. Um corpo coletivo de professores de uma instituição superior de ensino, mas também um corpus teórico-conceitual desta Enfermagem que entra em um processo de formação para atender às demandas de saúde em suas diferentes grandezas e contextos.

Resultados

A análise de conteúdo dos depoimentos dos estudantes de enfermagem identificou o posicionamento, os movimentos corporais, a forma de olhar, a aparência e as expressões faciais do professor, como elementos corporais que devem ser pensados, problematizados e discutidos no âmbito da formação superior de enfermeiros. Em continuidade, são apresentados alguns depoimentos que representam as quatro unidades de decodificação identificadas:

Primeira unidade: posicionamento e movimento corporal do professor

[...] o professor sentado fica mais próximo de você [...] é aquela pessoa que não está ali só para passar conhecimento, mas para ouvir o que você tem a dizer (Estudante 13); [...] o professor sentado ao seu lado favorece o aprender [...]. Você se aproxima, têm mais liberdade para perguntar, vontade de ouvir e participar [...] (Estudante 16); [...] o professor com uma postura torta na cadeira [...] demonstra desinteresse pelo que o estudante está falando (Estudante 2); [...] o professor em pé no quadro, a própria posição do corpo frente ao grupo facilita o aprendizado (Estudante 10); [...] o professor estar em pé, interessado em ver o estudante buscando [...] (Estudante 12); Um professor em especial se movimentava pelo espaço. Levanta, anda, fica sentado [...] isso faz com que as discussões fiquem dinâmicas e que a gente se ligue mais [...] (Estudante 9); Ele ficava na parede, cruzava os braços, ele sentava, ele andava. Esses movimentos criou então, um dinamismo no grupo (Estudante 14).

Segunda unidade: olhos do professor

A maneira como o professor olha, com atenção, com respeito, tudo é transmitido na forma de olhar (Estudante 4); Mas era uma professora que quando você estava errado, já sabia, pelo olhar (Estudante 5); O professor olhava para você, te incentivando [...] (Estudante 13); O olhar seguro. Tudo que é passado com segurança, você sente o aprendizado (Estudante 15); O professor fica olhando para os lados, demonstra desinteresse pelo que o aluno esta falando (Estudante 2); [...] você têm convicção de que aquilo está certo, você estudou e com o olhar desconfiado, o professor coloca tudo abaixo (Estudante 5); [...] o olhar do professor mostrava uma seriedade que assusta [...] (Estudante 7); [...] o professor só da uma olhada e não diz se está certo ou errado. O que acontece: desestimula a se expor (Estudante 8).

Terceira unidade: expressões faciais do professor

Só pela expressão: havia professores que pareciam tranquilos, você estava numa linha de raciocínio, indo muito bem [...] (Estudante 6); [...] as expressões faciais, vão evoluindo para você concluir seu raciocínio, facilita (Estudante 7); A gente percebe na face que o professor está chateado, aí todos os alunos procuravam crescer [...] (Estudante 11); [...] a própria expressão de insatisfação no rosto do professor quando o grupo não foi bem naquele momento, estimulava os estudantes a voltar nas questões e pesquisar [...] (Estudante 12).

Quarta unidade: aparência do professor

[...] as professoras têm que ter uma maneira respeitosa de se vestir: sem decote, sem saia curta (Estudante 4); [...] os professores botam uma roupa que não chame atenção, discreta [...] (Estudante 5); [...] os professores se vestem com roupas claras, tons neutros para dar aula [...] (Estudante 11).

Discussão

As unidades de decodificação identificadas retratam os agenciamentos ocorridos quando os estudantes de enfermagem aprendem o ofício de cuidar junto ao corpo do professor. A palavra de ordem agenciamento, remete a esta mistura de corpos em uma sociedade, compreendendo todas as atrações e repulsões, as simpatias e as antipatias, as alterações, as alianças, as penetrações e expansões que afetam as pessoas de todos os tipos, uns em relação aos outros.8) Nesta perspectiva, aproxima-se à discussão a disponibilidade para captar os elementos corporais de ordem subjetiva envolvidos na formação superior de enfermeiros. Isso porque o corpo contém uma multiplicidade de comunicações, capazes de influenciar o processo de ensino-aprendizagem, e logo, este deve ser considerado no desempenho das atividades acadêmicas.9

A primeira unidade de decodificação refere-se ao posicionamento e movimentos realizados pelo corpo do professor no cenário do ensinar. Na análise, foram encontradas três situações pedagógicas: o corpo sentado, em pé e os movimentos realizados pelo professor na sala de aula.

No que se refere à posição do corpo do professor na sala de aula, a distância entre os corpos pode significar uma distância social. É próprio dos estudantes dizerem que os professores devem se igualar a eles. Há uma indicação para os corpos que ensinam ficarem mais atentos para o posicionamento adotado no espaço físico, para que isto não seja mais um fator negativo no aprendizado e possa, ao contrário, despertar a atenção e interesse para aprender.9) Quando o corpo do professor ficou sentado no cenário do ensino, ou seja, no mesmo nível dos estudantes, houve divergências nos depoimentos,o que encaminhou a discussão dos efeitos para facilidades e dificuldades para aprender enfermagem.

Os principais efeitos agradáveis aos estudantes de enfermagem apontaram para a liberdade de expressão, para criação de vínculo, escuta ativa; facilidade em aprender a partir da troca de experiências e conhecimentos. A posição sentada permitiu ao estudante desejar participar das discussões sobre os textos curriculares. Desejo como produção de uma identidade profissional, criação do ser enfermeiro, enfrentamento de poderes, construção de novos saberes, potência e vida.10

Agora, ao analisar os conteúdos dos depoimentos, infere-se que a posição corporal do professor na cadeira foi alvo de observação dos estudantes nas cenas de ensino-aprendizagem. O corpo do professor sentado ao adotar uma postura torta, foi significado como desinteresse diante das discussões e prejudicou a apreensão dos conteúdos curriculares que estavam sendo coletivizados. O posicionamento do professor para ensinar os cuidados é um ponto diferencial de qualidade na formação de enfermeiros para adoção de posturas éticas e políticas. Se o profissional adota posições de pouca valorização das ações pedagógicas, haverá outro tipo de consequência para a prática educacional.9

No que tange a posição em pé adotada pelo corpo do professor: curiosamente esta posição ao ser assumida na sala de aula produziu efeitos agradáveis nos estudantes para aprender enfermagem. Nesse tipo de encontro, os corpos dos estudantes foram considerados como meros receptáculos do saber, habituados a receberem conteúdos curriculares referentes a doenças, políticas de saúde, processos de cuidar e gerenciar, entre outras noções aplicadas às diversas áreas da profissão de enfermagem.

Essa forma verticalizada de formar enfermeiros ocorre sob uma marcante influência de um modelo positivista de ciência, centrado em uma prática pedagógica com forte influência tecnicista, da qual emerge conteúdos de saúde centrados especificamente no biológico.11) Efetivamente, esse discurso convida a pensar o corpo do professor como veículo transmissor de poder com movimentos que o identifica como profissional de saúde afetado cotidianamente por diversos dispositivos de controle tramadas na rede da vida e que são analisados pelos estudantes de enfermagem na sala de aula.

A partir do momento que as cenas de ensino-aprendizagem foram conduzidas por movimentos corporais, ou seja, o professor dinamicamente anda, senta, levanta, cruza e descruza os braços, os estudantes de enfermagem tiveram suas atenções despertadas e aprenderam os conteúdos com maior facilidade. Sim, o professor transmite informações por meio de gestos, posturas, orientações do seu corpo, organização dos objetos no cenário e até pela relação de distância mantida com os estudantes. Todo esse gestual acaba sendo utilizado para facilitar a tarefa de compreender mensagens bastante significantes no processo de aprendizagem.12

A segunda unidade de decodificação cria a oportunidade de afirmar que olhar e ver são coisas distintas. Os estudantes durante as aulas ocuparam-se em ver o corpo do professor. Nesta observação, identificaram os olhos como elementos determinantes no processo de ensino-aprendizagem em enfermagem. Isso é decorrente do fato de que o olhar do professor carrega mensagens que vão desde o estímulo até o desinteresse pelos conteúdos que estavam sendo discutidos na sala de aula. Por conseguinte, o estudante foi influenciado pelos movimentos dos olhos do professor, bem como os locais do cenário de aprendizagem em que foi projetado seu campo visual para ensinar.

Seja o cenário vazio ou em direção aos corpos que aprendem, a forma de olhar foi capaz de revelar aproximações e distanciamentos no que diz respeito à recepção de uma mensagem curricular a ser apreendida.13) Corpo que para criar o papel de ser enfermeiro, não se comunica somente pelo olho-retina, olho-esclera, olho-pupila, mas por ordens invisíveis e sensíveis, pois são percebidas pelo corpo vibrátil.14,15) Sendo assim, os principais efeitos agradáveis aos estudantes baseados na forma de olhar do professor foram carregadas por mensagens de: acolhimento, atenção, incentivo, segurança e clareza no conteúdo ensinado. Contrariamente, o sentido que os estudantes de enfermagem quiseram dar ao dizer que alguns professores quando ensinam não olham nos olhos, foi representado por: inibição, medo, desvalorização e reprovação dos conteúdos problematizados na sala de aula. Olhos, agora entendidos como elementos de poder, onde a subjetividade é esquadrinhada e penetrada pela disciplina, e que são capazes de neutralizar os estudantes nas cenas de ensino-aprendizagem.

A terceira unidade de decodificação se refere às expressões faciais do professor. Corpo, entendido como signo, uma vez que a face passa a encenar textos curriculares que se projetam com diferentes significados e efeitos nos estudantes. Os depoimentos demonstraram que a expressão facial do professor muda constantemente, e pode ser decodificada como positiva a partir do momento que os estudantes a significam como: tranquila, a ponto de estimular a busca ininterrupta por conhecimentos científicos no domínio da enfermagem. Em contrapartida, elas produziram efeitos negativos quando carregaram mensagens de desestímulo, medo e retração. Nesses encontros, professor-estudante de enfermagem, os signos precisam ser percebidos, vistos de diversas formas para dar conta do significante e do significado expressado. Nesse aspecto, olhar bem, consiste em concentrar-se em elementos peculiares da face, o que supõe um esforço mental para decodificar as suas distintas formas e movimentos.16) É nesse contexto que a expressão facial do professor é capaz de transmitir muitas mensagens, que são percebidas e interpretadas pelos estudantes, e que orienta o comportamento deles na sala de aula.11) Baseado nisso, destaca-se a importância do professor em conhecer essa forma de comunicação não-verbal, como forma de identificar o interesse da turma na aula, mas para analisar seu próprio comportamento, que também influencia no aprendizado dos estudantes.17,18

A quarta e última unidade de decodificação, representada pelas roupas, induziu efeitos nos estudantes de enfermagem a partir do uso de tons claros, discretos e neutros que transmitiram mensagens de respeito. Os indicativos apontam que as roupas dos professores devem ser usadas com bom senso, de forma simples, informal, confortável e discreta. Além disso, devem ser usadas cores como recurso, estar de acordo com o estado de espírito do professor e com as convenções sociais da instituição onde se trabalha.19) Antes mesmo de realizar uma pausa nas reflexões postas, é fundamental exercitar estes diálogos que incidem na expressividade do corpo que ensina. Diga-se que é uma oportunidade de intensificar as apostas do pensamento contemporâneo, ou seja, pensar no limite entre os domínios do saber: arte e saúde, objetividade e subjetividade. Pensar então, nesta zona fronteiriça a partir de um contexto local, permitiu superar o isolamento dos saberes e já suscita a curiosidade em conhecer as reverberações desta investigação em outros contextos institucionais de formação superior de enfermagem como forma de ampliar os problemas e as questões que permeiam a prática de ensinar.

As conclusões deste estudo indicam que os estudantes de enfermagem olham para os professores durante os encontros cotidianos e identificam elementos em seus corpos que influenciam o aprendizado dos textos curriculares veiculados na sala de aula. Nesse sentido, o posicionamento, os movimentos corporais, os olhos, a face e as roupas dos professores foram determinantes no processo de aprendizagem dos estudantes de enfermagem. Acredita-se que a palavra de ordem “corpo” foi extrapolada para além dos seus limites orgânicos, o que deu vazão para novas leituras na formação superior em enfermagem. Corpo do professor que atrai ou repulsa o estudante, que possui desejos, age, sente e pensa a partir de uma íntima conexão com a vida, e nesta conectividade com o outro gera efeitos e imprime marcas capazes de dar forma à profissão de enfermagem. Generalizar ainda não foi possível. Baseado nisso, considera-se uma limitação do estudo a investigação se debruçar em dados de uma única Instituição de Ensino Superior e contemplar a realidade de estudantes regularmente inscritos no último período de formação acadêmica. Portanto, esses achados retratam uma específica realidade que pode divergir de outros contextos, currículos e períodos da formação, no qual o corpo do professor entra em contato com a formação dos estudantes de enfermagem.

Com a certeza do inacabado é inegável a necessidade de mudança no modo de ver e viver as relações entre professores e estudantes, a partir do reconhecimento do corpo como elemento expressivo e unidade de indução no processo de ensino-aprendizagem. Assim, recomenda-se a realização de novos estudos sobre este fenômeno em outros cenários de investigação, com o intuito de comprovação ou refutação destes achados. Salienta-se ainda, a importância da abertura de espaços nas universidades para a discussão do objeto “corpo do professor” com estudantes, professores e gestores universitários, para potencializar os processos de ensino-aprendizagem no domínio da Enfermagem.

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Notes

Article linked to research: Marcas do corpo do professor na formação de enfermeiros: um estudo sobre egressos nos cenários de cuidar.

Conflict of interests: none to declare.

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